Gravidez e outras coisas
Discordo com esse emprego freqüente da palavra sensibilidade para designarmos idiotice. Sim...o bolo, a mãe chorara pelos ingredientes, pelo doce, não estava com fome e um outro bolo não era problema pra ela. Acredito que chorara por tudo que depositara naquele bolo de chocolate, por tudo que foi com o bolo. A mãe grávida é invadida por um bolo de emoções. Naquele bolo havia muito mais que ovos, certamente. Propósitos, amor, carinho, dedicação, sonhos, amizade, esperança...tanta coisa. A mulher chorara não porque é grávida, porque estava sensível, porque sente, porque sentiu a perda de tudo que era aquele bolo. O bolo não era simplesmente um bolo. Retomando: "Gravidez deixa a gente assim, sensível demais."
Acho que em momentos de maior sensibilidade, estamos grávidos. Grávidos de algo que nos faz triste quando pensamos na perda, no aborto. Grávidos de algo, significa que algo foi gerado e é esperado. Ficamos sensíveis e percebemos cada grão de farinha desperdiçado. Quando um grão não é simplesmente grão, um abraço não é simplesmente abraço, um tapa não é simplesmente tapa, um afago não é simplesmente afago, um grito não é simplesmente grito, uma palavra não é simplesmente palavra, um olhar não é simplesmente olhar, um sorriso não é simplesmente sorriso, uma lágrima não é simplesmente lágrima, um nada não é simplesmente nada, um silêncio não é simplesmente silêncio...
Se fôssemos grávidos, perceberíamos o que cada gesto simples traz, simplesmente.


